Este é o blog da consulta de Neuroimunologia do Hospital de Braga. Aqui encontrará informação sobre as doenças neuroimunes, meios de diagnóstico e tratamento, notícias da investigação que se faz cá e noutras paragens, endereços e contactos úteis. Se quiser também contribuir para este espaço, coloque-nos as suas questões para o endereço neuroimunologia@gmail.com e veja aqui as respostas. Muito obrigado!
quinta-feira, 28 de março de 2013
Novo tratamento para a esclerose múltipla recebe aprovação na Europa
Novo medicamento oral para a esclerose múltipla aprovado na Europa e nos Estados Unidos
Os principais efeitos secundários do Tecfidera são gastrointestinais (mal estar abdominal, diarreia, náuseas), sentir-se quente ou ficar com a cara vermelha e dores de cabeça.
A utilização em Portugal ainda deve demorar, não sendo esperada antes de 2014 ou 2015.
segunda-feira, 7 de janeiro de 2013
A Esclerose múltipla e a vitamina D em 5 questões
A vitamina D é uma substância sintetizada na pele, sob acção dos raios ultravioletas do sol, a partir do colesterol. Alguma, pouca, vitamina D provém também da alimentação, sobretudo de alimentos enriquecidos (cereais de pequeno almoço, margarina) e dos peixes gordos (salmão, sardinha). Para exercer a sua acção, a vitamina D precisa ainda ser transformada no fígado e no rim para originar 1,25(OH)2D3 (vitamina D activa). A função melhor conhecida da vitamina D activa é a absorção de cálcio do intestino. No entanto a vitamina D tem também outras acções, incluindo a regulação das células imunes, sendo este o motivo que a torna interessante no âmbito da esclerose múltipla.
Quais a necessidades diárias de vitamina D?
A vitamina D, ao contrário de todas as outras vitaminas, é produzida em grandes quantidades pelo nosso organismo. Calcula-se que, em pessoas de pele clara, meia hora diária de exposição da cara e braços ao sol, sem protecção, seja suficiente para cobrir as necessidades. No entanto, alguns de nós poderão não atingir estes mínimos, seja por vivermos em países com menos horas de sol, pela utilização mais frequente de protectores e filtros solares, pela vida mais no interior dos edifícios, pela cor da pele ou pela idade. Nesse caso, a alimentação também não é suficiente, pois a quantidade de vitamina D presente nos alimentos é escassa (ver acima). Assim, pode ser necessária uma suplementação adicional com vitamina D. No entanto, as recomendações da Organização Mundial de Saúde quanto às necessidades diárias de vitamina D (estimadas em 15ug = 600UI) e o valor que deve ser ingerido diariamente (5 a 10ug = 200 a 400UI, conforme a idade) foram calculadas com base na acção da vitamina D no osso, descurando por completo as suas acções noutros órgãos. Deste modo, é possível que sejam necessárias doses maiores para um funcionamento adequado do sistema imunitário, por exemplo.
Como posso saber se tenho vitamina D suficiente?
É possível medir a vitamina D no sangue, mas tal como para as necessidades diárias, os valores mínimos apenas foram estabelecidos tendo em conta a saúde dos ossos, pelo que a interpretação dos resultados pode ser difícil. Embora o testes variem de laboratório para laboratório, é consensual que valores inferiores a 25 nmol/L (10ng/ml) prejudicam a deposição de cálcio nos ossos e levam ao raquitismo e osteomalácia, sendo portanto este valor considerado o limite da deficiência em vitamina D. No entanto, a prevenção da osteoporose e da saúde óssea parece necessitar de níveis de vitamina D superiores a 50nmol/L, considerado o limiar da insuficiência em vitamina D, havendo mesmo evidência da necessidade de se manterem valores superiores a 75nmol/L (30ng/ml). De notar que, embora menos estudados, níveis nesta ordem de grandeza poderão também ser importantes para algumas das outras funções da vitamina D, incluindo a esclerose múltipla (ver a seguir). Outro modo de saber se há vitamina D suficiente é medir os níveis de paratormona (PTH). A PTH é uma hormona produzida pelas glândulas paratiróides (ao lado da tiróide, no pescoço), cuja função é manter os níveis adequados de cálcio no sangue. Se não houver vitamina D suficiente para absorver cálcio do intestino, a paratormona aumenta para compensar, promovendo a reabsorção de cálcio do osso e no rim.
Qual a relação entre vitamina D e esclerose múltipla?
A vitamina D é capaz de regular o funcionamento das células imunitárias, que expressam o seu receptor, e, em modelos animais de esclerose múltipla, o tratamento com vitamina D foi capaz de melhorar o curso da doença. Além disso, níveis mais elevados de vitamina D diminuem o risco de sofrer de esclerose múltipla, enquanto alterações genéticas na enzima que converte a vitamina D na sua forma activa aumentam aquele risco. Nesta linha, seria razoável supor que níveis elevados de vitamina D poderiam afectar o curso inicial da doença, o que tem sido difícil de demonstrar. Na realidade, a mais recente evidência, ainda com alguns resultados contraditórios, mostra apenas que níveis maiores de vitamina D parecem estar associados a menos lesões novas na ressonância ou a menor risco de surtos, mas comparando níveis adequados de vitamina D com níveis insuficientes. Em resumo, os dados mais recentes sugerem que, além de fazer bem ao osso, níveis “normais” de vitamina D (>75nmol/L – 30ng/ml) parecem fazer bem à esclerose múltipla e devem ser atingidos em todos os pacientes. Contudo, não se sabe se níveis “ muito altos de vitamina D (>125nmol/L – 50ng/ml) trazem um benefício acrescido, havendo até um estudo que sugere o contrário, pelo que o seu uso deve ser cauteloso.
Devo tomar vitamina D?
Tal como acabamos de ver, depende. Se os seus níveis de vitamina D forem inferiores ao considerado necessário (>75nmol/L – 30ng/ml) é razoável que tome um suplemento adequado para os trazer para valores “normais”. No entanto, até ao presente, e exceptuando informações pouco rigorosas e relatos de disponíveis na Internet, não há evidência científica de que a suplementação com vitamina D em pessoas com níveis adequados (>75 a 100nmol/L – 30 a 40ng/ml) seja benéfica para a doença. Tal como todos os medicamentos, a toma de vitamina D em excesso pode ser extremamente prejudicial para o doente, sobretudo pelo aumento dos níveis de cálcio no sangue, que podem causar litíase (“pedra”) nas vias urinárias, danificando os rins, ou interferir com a função muscular e a condução nervosa. Tendo em conta estes dados, recomendamos sempre que discuta com o seu médico assistente antes de começar a tomar qualquer suplemento, incluindo os que contêm vitamina D.
Texto publicado na revista da associação "Todos com a esclerose mútlipla" Dezembro de 2012.
domingo, 29 de maio de 2011
"Alargar as veias do cérebro" pode tratar a Esclerose Múltipla?
Segundo os autores deste artigo, citado abaixo, estas anomalias estariam presentes em quase todos os doentes com esclerose múltipla e apenas nesses.
Apesar de terem sido feitos muitos outros estudos depois deste, mais ninguém conseguiu obter os mesmos resultados, pelo que não há provas convincentes de que estas alterações estejam relacionadas com a doença.
Num artigo aceite para publicação em 2008 e que pode ser consultado na íntegra neste endereço, a equipa liderada pelo Dr Zamboni, conhecido cirurgião vascular da Universidade de Ferrara, descreveu pela primeira vez um conjunto de 5 alterações (a maioria apertos ou dificuldades de circulação do sangue) nas veias do cérebro (jugulares) e junto à coluna vertebral (ázigos) que estaria presente em quase todos os 65 doentes com esclerose múltipla estudados, mas não tinham sido encontrados em nenhum das 235 pessoas sem esclerose múltipla também analisadas (controlos).
Tal como os autores afirmavam neste primeiro artigo, a confirmar-se, esta seria uma verdadeira revolução no modo de encarar a doença. De facto, em vez de se tratar a imunidade (tal como fazem todos os tratamentos disponíveis para a doença, alguns com bastante eficácia) a chave para a cura da doença estaria em "alargar" as tais veias apertadas e deixar o sangue sair de novo da cabeça e da medula espinhal.
Tal como sempre na ciência, sobretudo quando há uma descoberta "revolucionária" e que vai contra o conhecimento existente, várias outras equipas se puseram em campo para tentar fazer a mesma experiência e assim confirmar que os resultados da equipa italiana não se deviam a outros factores como o acaso, erros no modo de examinar as veias ou na escolha dos pacientes, entre outros. O problema é que até ao momento, ninguém além dos autores conseguiu encontrar os mesmos resultados. Na verdade, utilizando métodos mais fiáveis e precisos para examinar as veias, estudos realizados em várias instituições (por exemplo este) demonstraram que as alterações descritas pelo grupo de Ferrara são raras e ocorrem igualmente em doentes e pessoas saudáveis, pelo que não estão associadas à doença.
Recentemente, a Sociedade Europeia de Radiologia Cardiovascular e de Intervenção, que representa os médicos que realizam tratamentos dentro dos vasos sanguineos, como o que está a ser proposto para a esclerose múltipla, emitiu uma declaração condenando a realização desta intervenção (cujo sumário pode ser consultado aqui), sobretudo tendo em conta que:
1) não é baseada numa teoria científica sólida, indo mesmo contra a maioria da evidência existente sobre as causas da esclerose múltipla;
2) não há evidência científica para o benefício da intervenção, nem nenhum estudo que mostre de modo convincente que a intervenção traz benefícios;
2) a única evidência de que a intervenção é benéfica são relatos de pacientes submetidos à mesma, em que estes dizem que melhoraram - infelizmente estes relatos estão disponíveis na internet, em particular em vídeos do youtube, mas quase nunca foram escrutinados em nenhuma publicação científica;
3) não haver relatos dos casos que correram mal, nem na internet nem em publicações, embora se saiba que este é um procedimento com elevados riscos e haja conhecimento de insucessos.
Assim, toda e qualquer tentativa de curar a esclerose múltipla alargando as veias do cérebro deve ser considerada não científica, por não ser apoiada por evidência credível nem ter nenhuma base de sustentação razoável.
sábado, 28 de maio de 2011
Viagra para tratar a esclerose múltipla
Na figura da esquerda pode ver-se o primeiro resultado do estudo, que mostra como os animais vão ficando mais incapacitados após o início da doença (a linha vai subindo, o que quer dizer que a gravidade dos sintomas aumenta) e como após se começar a tratar metade dos animais com Viagra (seta), estes animais começam a melhorar (linha que desce) enquanto os que não receberam o medicamento continuam a piorar (linha que sobe).
sábado, 6 de fevereiro de 2010
Risco da terapêutica com natalizumab (Tysabri) parece aumentar com a duração do tratamento
sábado, 26 de setembro de 2009
Acetato de glatirâmero
O acetato de glatirâmero é um medicamento injectável, administrado por via subcutânea (por baixo da pele, como a insulina) diariamente. Estudos controlados contra placebo (medicamento sem princípio activo) mostraram que o tratamento com acetato glatirâmero nas formas de esclerose múltipla com surtos reduzia em média, no grupo de doentes tratados, o número de surtos por ano em cerca de 30%, sendo considerado por isso de eficácia semelhante aos interferões.
É um medicamento seguro, cujos principais inconvenientes são reacções no local da injecção, nomeadamente a formação de nódulos duros e dolorosos ou, mais raramente, pequenas úlceras (feridas) na pele. Por vezes, também pode causar sensações incomodativas de palpitações e aperto torácico.
terça-feira, 8 de setembro de 2009
Interferão beta
Não se sabe bem o modo como o interferão beta actua em doentes com esclerose múltipla, mas parece funcionar como um sinal de cessar-fogo, indicando às "tropas" a altura de baixar as armas e regressar ao quartel porque o inimigo já está "controlado". Existem 3 medicamentos contendo interferão beta disponíveis em Portugal: interferão beta-1a intramuscular (Avonex(R)), interferão beta 1a subcutâneo (Rebif(R)) e interferão beta-1b subcutâneo (Betaferon(R)). Estudos controlados contra placebo (medicamento sem princípio activo) mostraram que o tratamento com interferão beta apenas tinha benefício nas formas de esclerose múltipla com surtos (não naquelas progressivas sem surtos) e reduzia em média, no grupo de doentes tratados, o número de surtos por ano em cerca de 30%.
Apesar de praticamente não existirem estudos de comparação, a eficácia das diferentes preparações de interferão parece ser semelhante. A principal diferença entre as 3 preparações é o modo de administração: enquanto o Avonex(R) é dado por via intramuscular (na nádega) uma vez por semana, os outros são dados por via subcutânea (tipo insulina) 3 vezes por semana (Rebif (R)) ou dia sim dia não (Betaferion (R)).
O principal efeito secundário dos interferões é a ocorrência, com cada injecção, de dores musculares, dores de cabeça, fadiga e febre, semelhante à de uma quadro de gripe, que pode ser melhorado ou até prevenido pela toma de um analgésico/antipirético. Felizmente este é um efeito que tende a desaparecer com o uso repetido. Outro incoveniente do uso de interferões, particularmente os subcutâneos é a ocorrência de inflamação no local da injecção, formação de nódulos duros e dolorosos ou, mais raramente, pequenas úlceras (feridas) na pele. Geralmente estas lesões locais estão relacionadas com mau uso dos injectores e não respeito da técnica correcta, e podem ser corrigidas. Outros efeitos do interferão, como alterações da tiróide, das células do sangue ou do fígado, são bastante mais raros e obrigam apenas a vigilância com análises de sangue periódicas para ajuste da medicação.
Corticóides
Nas doenças neuroimunológicas os corticóides usam-se como imunossupressores, ou seja para suprimir (parar) a actividade do sistema imune, que nestas doenças está descontrolado e ataca o sistema nervoso (ver neuroimunologia). A metiprednisolona é utilizada, por administração endovenosa (na veia), em altas doses (1gr/dia) e por períodos de tempo curtos (3 a 5 dias), para tratar episódios agudos (surtos) em doenças como o neuroBehçet, a Esclerose Múltipla, a neuroSarcoidose ou o neuroLupus. Para tratamento prolongado, de modo a evitar recaídas da doença, utiliza-se, em doses muito mais baixas e por via oral, a metilprednisolona ou a prednisolona. De notar que este tratamento prolongado não está indicado, por exemplo, na esclerose múltipla.
Apesar de serem muito específicos, nenhum dos corticóides utilizados é isento das outras acções, que se manifestam, sobretudo em uso prolongado e em altas doses, como efeitos indesejados (ou secundários). Entre estes contam-se o aumento de peso e a deposição de gordura no tronco, pescoço e face, o aumento dos níveis de açucar no sangue, a erosão da mucosa do estômago, a osteoporose, o enfraquecimento do cabelo e da pele e até algumas alterações cognitivas.
Ainda assim o balanço a favor dos corticóides, dada a sua eficácia e rapidez de acção, é positivo, desde que utilizados nas indicações aprovadas, nas doses mínimas eficazes, pelo menor período de tempo possível e acompanhados das medidas preventivas adequadas.
